02/05/2019

Especialistas incentivam o setor de alimentos funcionais e saudáveis a se prepararem para o futuro
Com palestras sobre tendências e ferramentas, congresso da WellFood Ingredients incluiu debate sobre as possibilidades de desenvolvimento e promoção

As vendas de alimentos com apelo à saúde e bem-estar no País ultrapassaram R$ 73 bilhões, segundo a Euromonitor International. Dentro desse cenário, empresas consideradas visionárias são fundamentais para o desenvolvimento do setor de ingredientes funcionais, nutracêuticos e naturais. Esse é o pensamento do diretor geral da Koelnmesse no Brasil, Cassiano Fachinetti, responsável pela organização da WellFood Ingredients, cuja segunda edição ocorreu nos últimos dias 3 e 4 de abril, com congresso internacional organizado pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

“São produtos cada vez mais requisitados pelos consumidores e do nicho de maior valor agregado da indústria de alimentos”, ressaltou Facchinetti, que considera os participantes do evento – profissionais de marketing, pesquisa e desenvolvimento (P&D) das indústrias –, os maiores interessados em “novas tecnologias e soluções para o desenvolvimento de novos produtos, atendendo a uma demanda de consumidores cada vez mais exigentes”.

Além de organizar o congresso, o Ital integrou a abertura e mediou o debate sobre a tecnologia como aliada da indústria e as possibilidades de desenvolvimento e promoção de produtos, através do diretor de Assuntos Institucionais, Luis Madi, e nas palestras sobre a reformulação de produtos, mudanças na rotulagem e a imagem da indústria na sociedade, ministrada pelo coordenador da Plataforma de Inovação Tecnológica (PITec), Raul Amaral, e sobre embalagens ativas e inteligentes como resposta aos desafios da sociedade moderna, ministrada pela pesquisadora Claire Sarantópoulos, do Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea). “Somos uma instituição do Governo do Estado de São Paulo que acredita nas parcerias, na integração com a iniciativa privada, há mais de 35 anos”, frisou Madi.

Alinhado ao projeto Alimentos Industrializados 2030, que tem como escopo orientar e informar o consumidor, Raul Amaral abordou a necessidade de abastecer a sociedade com conteúdo embasado para que ela saiba filtrar qualitativamente a grande quantidade de informações relacionadas ao setor de alimentos. “Mostrar o outro lado, a outra vertente, a outra opção, para o poder de escolha e para que o jornalista, a população, que esteja procurando, possa ter uma fonte fidedigna da questão da ciência”, mencionou o coordenador da PITec, que lançou em março o módulo Iniciativas Empresariais do site www.alimentosprocessados.com.br.

Durante o debate, Madi considerou que a comunicação eficiente com a sociedade é o maior desafio do setor, opinião compartilhada pelos representantes da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (Abir), da Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Ingredientes e Aditivos para Alimentos (Abiam) e da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abiad).

“Foram lançadas pesquisas que mostram que o número de morte de pessoas que tomam refrigerante é maior do que o número de quem não toma, mas você vai avaliar os outros componentes dessa pesquisa e são pessoas que se alimentam mal, que fumam, que não fazem atividade física”, citou Alexandre Jobim, presidente da Abir, sobre a informação equivocada em relação à bebida industrializada tão popular entre os consumidores. Jobim aproveitou para mencionar a maior variedade de bebidas não alcoólicas disponíveis no mercado, englobando sucos, energéticos, bebidas funcionais e chás. “Com o aumento de opções ao consumidor, desde que aprovadas pelos órgãos competentes, cabe ao cidadão o seu direito de escolha, seu livre arbítrio: que ele escolha o que consumir, como consumir, e que não seja tutelado por associações radicais.”

A presidente da Abiad, Tatiana Pires, concorda que o desejo do consumidor por alimentos mais saudáveis deve ser atendido, mas as medidas restritivas devem ser coerentes: possíveis tecnicamente, obedecendo critérios, inclusive dos desejos de sabor. “Apenas 19% do açúcar é adicionado pela indústria na fabricação de alimentos: tem uma parcela que é o açúcar intrínseco ao ingrediente, a frutose, a lactose, e 55% é o açúcar, consumido em monte pela população brasileira, adicionado em casa, em restaurante, na hora de adoçar o seu café, do preparo do seu alimento. A mesma coisa com sódio: quando a gente olha a quantidade, mas de 75% do sódio consumido em média pelo consumidor brasileiro é o sódio que é adicionado na preparação do alimento”, explicou Tatiana sobre as incoerências. A representante da Abiad destacou, dentre os acordos voluntários das entidades setoriais de redução, a retirada de 310 mil toneladas de gordura trans de alimentos industrializados.

Para a diretora de ações institucionais da Abia, Beatriz Milliet, o ideal é sempre trabalhar com base de dados e pesquisas, lembrando sempre que o principal ponto é garantir a segurança alimentar e atender o desejo do consumidor. “Tem o momento do bolo de chocolate, porque todo mundo está buscando indulgência que não necessariamente é só isso. Culturalmente o brasileiro é assim: a gente vai em festa infantil e come brigadeiro e adora”, ponderou.

Hélvio Colino, presidente da Abiam, mencionou ainda outro desafio no processo de evolução da indústria de alimentos: “a grande realidade da massa populacional mundial e a nossa está em quem come ainda muito básico”. “A meu ver está na hora de a gente passar do discurso interno que a gente tem feito bem, nos polos de discussões, para o discurso externo. Nós temos que definitivamente começar a conversar com o consumidor final.”

Dentro desse contexto, Madi destacou o importante papel que tem sido desenvolvido pelo Ital através dos projetos Brasil Processed Food 2020 e Alimentos Industrializados 2030, no sentido “de educar, de mostrar, de publicar tendências e os fatos, eliminando principalmente mitos”. “A posição das entidades setoriais nos últimos dois anos mudou muito: é muito positivo. Nós não temos dúvida também que as entidades governamentais começam a mudar também.”